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quinta-feira, julho 24, 2008

Crónicas do Cátabo



Crónica terceira

Já fui paneleiro. Brevíssimo paneleiro. Tão depressa condenado como sumariamente absolvido.
Era o ano de 1989. Habitava o rés-do-chão do número 9 da Rua de S. Miguel, no Porto. Um velho e cansado edifício que, descobriu-se há pouco, ocupa o lugar que antigamente foi de uma Sinagoga.
Espantosa rua aquela. Do lado de cima, ao dobrar da esquina ficava a sede local da Polícia Judiciária. Fechados no sorumbático edifício com maciças portas, os polícias tratavam das suas coisas policiais. Na rua, ocasionais vendedores de droga cuidavam de aplacar o seu vício. Rua plácida e preguiçosa, tinha também a sua vendeira de peixe: uma desgastada caixa de sardinhas substituía com denodo o frigorífico e o estreito passeio também desempenhava bem o seu papel de balcão. À noite, jogava-se às cartas ao ar livre e a dinheiro.
A minha filha mais velha tinha acabado de chegar.
E com ela as fraldas. Rumas de fraldas, todos os dias. Fraldas ainda sem prometidas habilidades para reter enxurradas e enchentes, capazes de estancar o Cávado e de pôr em sentido respeito o Minho, deixando ainda um suave rasto de odor a lavanda. Fraldas, enfim, que eram apenas fraldas: tecidas em algodão branco e reutilizáveis. Havia um pequeno e amoroso ritual doméstico: secar, recolher, passar a ferro, colocá-las aos pares, esticar pelas orelhas, dobrar em triângulo a primeira vez e repetir a dobra. Mas isso era depois. Antes, havia que as lavar.
Abaixo da porta da cozinha, havia um bocadinho de terreno. Desse maravilhoso camarote particular era-nos servido o Porto. À esquerda, a velha Sé, a ponte de D. Luís I. Mesmo em frente, o olhar esbarrava na formosa cúpula do Palácio da Bolsa. Do lado de lá, Gaia ajoelhava-se, em vénia, para o magnífico Douro.
Nesse terreninho estava o tanque de lavar.
Por esses dias fazia calor. Avental de plástico posto sobre o tronco nu, começou a diária lavagem. Primeiro, as fraldas pouco sujas. Depois, as de có-có. Uma água. Duas águas. Três águas. Torcer bem. Sacudir com energia. E estender no arame.
No último andar do prédio do lado, à janela, uma rapariga agita-se: vinde ver, vinde ver, depressa. Da outra janela surgem mais cabeças de raparigas. E de pronto sentenciam e decapitam a minha masculinidade. Um gajo a tratar de roupa de bé-bé?, é paneleiro! Só pode ser paneleiro. Viçosa risada geral.
Foi curto o meu paneleirismo. Durou uns metros medidos em poucos em passos. Quando voltei com mais fraldas, as molas presas nos dentes, alguma das moças reparou: olha!... mas tem barbas! Um paneleiro com barbas!, onde é que já se viu? O breve impasse foi resolvido com uma decisão salomónica: afinal não é paneleiro, só está a fazer uma paneleirice.

segunda-feira, julho 07, 2008

Crónicas do Cátabo

Crónica Segunda

Do nome não recordo. Lembro bem da testa, brilhante de um suor oleoso, e das mãos, sebosas e inquietas, a segurar uma bolsilha. Este homem tinha uma estalagem, uma mulher e uma filha. Ou era uma estalagem, uma filha e uma mulher? Da estalagem é que não houve dúvidas.
Por aquela altura, já lá vai mais de uma década, no Tribunal de Barcelos foram julgados vários casos de violação. O homem da estalagem estava arrolado como testemunha num deles.
Estava-se na Primavera e corriam as Festas das Cruzes. Uma rapariga, aluna numa das escolas da cidade, com os seus 14 ou 15 anos (já não lembro bem), foi-se divertir numa das pistas de carrinhos de choque. Dias após, regressou ao mesmo divertimento. De ambas as vezes, estava sozinha. De ambas as vezes, chegou, gastou todo o dinheiro disponível em fichas e depois deixou-se ficar por ali, a assistir ao corrupio do local. A banhar-se na cativante e sedutora desordenança, como um peixe que abandona a segurança regrada do seu pequeno aquário doméstico.
Peixe de águas revoltosas e profundas, habituado a manhas e truques, com graduação obtida em festas e romarias, um empregado do divertimento não demorou a topar a rapariga.
Meteu conversa, e ela respondeu.
Ofereceu-lhe fichas, e ela aceitou.
Ganhou-lhe a confiança e a simpatia.
Um dia, esperava-a à saída da escola. Fez convite para um passeio, de carro.
Foram para um pinhal não longe da cidade. O condutor do automóvel violou-a. Cúmplice só na armadilha, o jovem da pista dos carrinhos de choque assistiu.
Gordinho, o homem da testa reluzente protestava com brandura, indignava-se com comedimento. No átrio do tribunal, já todos sabiam que era empresário e que estava impaciente e aborrecido pelo tempo, irrecuperável, que estava a perder. Tempo inutilizado ali; tempo tão querido e precioso para dedicar à sua amada estalagem.
Chegou por fim a sua vez de prestar testemunho.
O que é que nos pode dizer sobre o caso que estamos aqui a tratar?, perguntaram-lhe. E o homem da testa reluzente lamentou. Lamentou o tempo que lhe tinham feito perder. Lamentou ainda que nada pudesse contribuir, porque nada sabia.
Mas a vítima não é sua filha? É, sr. dr. juiz. Mas eu só sei que já perdi muito tempo com isto. Além do mais, eu trabalho, sou uma pessoa muito ocupada, tenho responsabilidades e a educação da minha filha é com a mãe dela. Para mais, tratando-se de coisas de mulheres.
Foto: Nuno Sousa

quinta-feira, junho 26, 2008

Crónicas do Cátabo

Crónica Primeira.

Pessoas singelas, Leocádia e Adrião foram presas fáceis. Bastou um telefonema. Uma voz treinada. E a promessa de um brinde, a ser entregue pessoalmente num estabelecimento hoteleiro da cidade.
Recebido no fim de um dia de trabalho, mais que o brinde, aquele telefonema prometia algo mais importante: uma arritmia no monocórdico quotidiano.
E eles mereciam esse reconhecimento. Essa pequena felicidade.
A ingenuidade de Leocádia e Adrião fez deles um casal harmonioso. Dizer feliz talvez não fosse exagero.
Ele trabalha há anos numa grande empresa de venda de materiais de construção civil. Está grato aos patrões pelos 550 euros que lhe entregam mensalmente – “a pagar, são certinhos como o sol”. Adrião aceita com naturalidade, mesmo com bondade, que aqueles 550 euros o obriguem a trabalhar 12 horas por dia. “Mais os sábados de manhã, mas só até ao meio-dia.”
Leocádia trabalha num conhecido restaurante da cidade. Quantas horas? As que os patrões mandam. É assim há anos. Diz Adrião: “o que eu ganhava dava para termos uma vida limpa. Mas no fim do mês sobrava pouquinho. Apareceu aquela oportunidade, e aproveitámo-la.” A palavra a Leocádia: “trabalho como mulher a dias. Não tenho caixa, nem faço descontos. O que ganho é limpinho. São 375 euros.” Recebe quando os patrões pagam. Ao longo dos anos, foi perdendo a conta aos salários que não recebeu. Quantos meses? “Acho que são sete. Ou talvez oito. Não sei bem.” Adrião justifica: “como não faz descontos, está clandestina. Não tem direitos.”
A casa deste casal modesto chegou o telefonema convidante. E eles foram. E divertiram-se, como raramente. Entretidos e crentes, não viram as sombras, os vultos por detrás da luz. Receberam um brinde gratuito e assinaram um papel. Não souberam bem para quê.
Dias depois, receberam uma carta, que não perceberam. Passaram-se mais duas semanas, quando procuraram ajuda. Que carta é esta? O que é que isto quer dizer?
Quer dizer, senhores Leocádia e Adrião, que compraram um colchão. Quem comprou um colchão? Vocês. Nós não compramos nada! Está aqui a cópia: compraram um colchão a crédito. Não pode ser, nós nunca compramos nada a crédito; só compramos quando temos dinheiro.
Sete mil euros. Sete mil euros foi quanto custou o colchão. Colchão que Adrião e Leocádia não usam. Nunca usarão.

Texto: José Carlos Braga
Foto: Nuno Sousa

Nota: - "Cátabo" - Uma das formas como surge designado o Rio Cávado em documentos do Sec. IX/X