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quinta-feira, junho 26, 2008

Crónicas do Cátabo

Crónica Primeira.

Pessoas singelas, Leocádia e Adrião foram presas fáceis. Bastou um telefonema. Uma voz treinada. E a promessa de um brinde, a ser entregue pessoalmente num estabelecimento hoteleiro da cidade.
Recebido no fim de um dia de trabalho, mais que o brinde, aquele telefonema prometia algo mais importante: uma arritmia no monocórdico quotidiano.
E eles mereciam esse reconhecimento. Essa pequena felicidade.
A ingenuidade de Leocádia e Adrião fez deles um casal harmonioso. Dizer feliz talvez não fosse exagero.
Ele trabalha há anos numa grande empresa de venda de materiais de construção civil. Está grato aos patrões pelos 550 euros que lhe entregam mensalmente – “a pagar, são certinhos como o sol”. Adrião aceita com naturalidade, mesmo com bondade, que aqueles 550 euros o obriguem a trabalhar 12 horas por dia. “Mais os sábados de manhã, mas só até ao meio-dia.”
Leocádia trabalha num conhecido restaurante da cidade. Quantas horas? As que os patrões mandam. É assim há anos. Diz Adrião: “o que eu ganhava dava para termos uma vida limpa. Mas no fim do mês sobrava pouquinho. Apareceu aquela oportunidade, e aproveitámo-la.” A palavra a Leocádia: “trabalho como mulher a dias. Não tenho caixa, nem faço descontos. O que ganho é limpinho. São 375 euros.” Recebe quando os patrões pagam. Ao longo dos anos, foi perdendo a conta aos salários que não recebeu. Quantos meses? “Acho que são sete. Ou talvez oito. Não sei bem.” Adrião justifica: “como não faz descontos, está clandestina. Não tem direitos.”
A casa deste casal modesto chegou o telefonema convidante. E eles foram. E divertiram-se, como raramente. Entretidos e crentes, não viram as sombras, os vultos por detrás da luz. Receberam um brinde gratuito e assinaram um papel. Não souberam bem para quê.
Dias depois, receberam uma carta, que não perceberam. Passaram-se mais duas semanas, quando procuraram ajuda. Que carta é esta? O que é que isto quer dizer?
Quer dizer, senhores Leocádia e Adrião, que compraram um colchão. Quem comprou um colchão? Vocês. Nós não compramos nada! Está aqui a cópia: compraram um colchão a crédito. Não pode ser, nós nunca compramos nada a crédito; só compramos quando temos dinheiro.
Sete mil euros. Sete mil euros foi quanto custou o colchão. Colchão que Adrião e Leocádia não usam. Nunca usarão.

Texto: José Carlos Braga
Foto: Nuno Sousa

Nota: - "Cátabo" - Uma das formas como surge designado o Rio Cávado em documentos do Sec. IX/X

terça-feira, junho 24, 2008

Apanhados

Fui, também eu, apanhado. Senão vejam a observação que um amigo meu me fez por mail:

"Aquele grupo de jogadores (bem assim como as sapatilhas / chuteiras desmesuradas) foi fotografado e divulgado em todos (reforço: todos) os jornais que li ou por que passei os olhos nas últimas semanas - e não me refiro apenas aos jornais nacionais. O mesmo para as televisões. Donde se conclui, portanto, que tudo quanto é fotógrafo enviado especial ou de agência de notícias fotografou o conjunto. E assim, a marca conseguiu uma visibilidade e um espaço nos serviços noticiosos enorme. Tudo isso sem gastar um tusto..."

disse ainda:

"Vê bem, Nuno: com aquela instalação publicitária, aquela marca comercial conseguiu uma exposição extraordinária. Conseguiu até (mesmo que involuntariamente - mas aí é que está a eficácia extrema do "segredo") ser divulgada no Micróbio."

P.S. - Segundo informação desse meu amigo, Jurista, a publicidade subliminar é proibida pela legislação portuguesa. Ai se a ASAE sabe...