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segunda-feira, julho 07, 2008

Crónicas do Cátabo

Crónica Segunda

Do nome não recordo. Lembro bem da testa, brilhante de um suor oleoso, e das mãos, sebosas e inquietas, a segurar uma bolsilha. Este homem tinha uma estalagem, uma mulher e uma filha. Ou era uma estalagem, uma filha e uma mulher? Da estalagem é que não houve dúvidas.
Por aquela altura, já lá vai mais de uma década, no Tribunal de Barcelos foram julgados vários casos de violação. O homem da estalagem estava arrolado como testemunha num deles.
Estava-se na Primavera e corriam as Festas das Cruzes. Uma rapariga, aluna numa das escolas da cidade, com os seus 14 ou 15 anos (já não lembro bem), foi-se divertir numa das pistas de carrinhos de choque. Dias após, regressou ao mesmo divertimento. De ambas as vezes, estava sozinha. De ambas as vezes, chegou, gastou todo o dinheiro disponível em fichas e depois deixou-se ficar por ali, a assistir ao corrupio do local. A banhar-se na cativante e sedutora desordenança, como um peixe que abandona a segurança regrada do seu pequeno aquário doméstico.
Peixe de águas revoltosas e profundas, habituado a manhas e truques, com graduação obtida em festas e romarias, um empregado do divertimento não demorou a topar a rapariga.
Meteu conversa, e ela respondeu.
Ofereceu-lhe fichas, e ela aceitou.
Ganhou-lhe a confiança e a simpatia.
Um dia, esperava-a à saída da escola. Fez convite para um passeio, de carro.
Foram para um pinhal não longe da cidade. O condutor do automóvel violou-a. Cúmplice só na armadilha, o jovem da pista dos carrinhos de choque assistiu.
Gordinho, o homem da testa reluzente protestava com brandura, indignava-se com comedimento. No átrio do tribunal, já todos sabiam que era empresário e que estava impaciente e aborrecido pelo tempo, irrecuperável, que estava a perder. Tempo inutilizado ali; tempo tão querido e precioso para dedicar à sua amada estalagem.
Chegou por fim a sua vez de prestar testemunho.
O que é que nos pode dizer sobre o caso que estamos aqui a tratar?, perguntaram-lhe. E o homem da testa reluzente lamentou. Lamentou o tempo que lhe tinham feito perder. Lamentou ainda que nada pudesse contribuir, porque nada sabia.
Mas a vítima não é sua filha? É, sr. dr. juiz. Mas eu só sei que já perdi muito tempo com isto. Além do mais, eu trabalho, sou uma pessoa muito ocupada, tenho responsabilidades e a educação da minha filha é com a mãe dela. Para mais, tratando-se de coisas de mulheres.
Foto: Nuno Sousa

quarta-feira, abril 30, 2008

Dá que pensar!!!


Hoje, no jornal da tarde, ouvi esta coisa extraordinária da nossa ministra da educação, que é considerar que os alunos não devem chumbar. E explicou porquê: em primeiro lugar porque quando um aluno chumba, está a aumentar a despesa do min. da educação, ou seja, se cada aluno fica por ano por 3000 euros anuais, um aluno que chumbe fica por 6000.
Em segundo lugar, porque o chumbo é uma coisa do passado. É, segundo ela, um mecanismo retrógrado. Em vez do chumbo deve haver é "mais trabalho"...
Ao que parece o que a nossa ministra quer é um país cheio de doutores (baratos) e como diz o ditado... " o barato sai caro!"
Para não ser ofensivo, apenas me ocorre o seguinte comentário... dá que pensar!!!
Foto: Festa da Barca do lago - Gemeses - Esposende - Agosto 2007

quinta-feira, março 27, 2008

De vítimas a criminosos


As mais recentes notícias sobre a indisciplina e violência na escola, fizeram das crianças e jovens portuguesas passar, como num toque de magia, de vítimas a criminosos.
Nem um nem outro extremos são verdadeiros. Seria importante que nos deixássemos de sensacionalismos baratos e nos preocupássemos mais com as causas deste tipo de comportamentos que muitas vezes reside em decisões políticas que aparentemente nada tem que ver com o assunto.
Hoje foi noticiado que o governo pretende emanar um conjunto de diplomas legais tendentes a facilitar o divórcio.
Medidas deste tipo, que promovem a desagregação da família, tem um efeito extremamente nocivo ao nível comportamental das crianças e jovens na medida em que a separação dos pais geralmente acarreta para os filhos um enorme sofrimento, que naturalmente se manifestará no seu comportamento. Até podem colocar um polícia ao pé de cada aluno. Se não se tratarem as causas, de nada valerá.