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quinta-feira, novembro 09, 2017

domingo, abril 20, 2014

S/ Título

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Coimbra, 20 de Abril de 1981 - Regresso à perdição da cidade e dos jornais. Horas e horas a mastigar as mesmas notícias em várias versões, todas distorcidas. A realidade desfigurada num fluxo de palavras que não para, não hesita, não volta atrás, que se deixa arrastar na sua pressa e arrasta o leitor para o abismo da perplexidade ou da conivência. E às tantas, esquecido da minha condição de letrado, dou comigo a ter saudades da concisa linguagem de um sino aldeão, que em meia dúzia de badaladas festivas ou plangentes anuncia do campanário um nascimento ou uma morte. A comunicação reduzida a sinais inequívocos, sem retórica possível, sem perversão possível. Sinais que também são a crónica dos dias, mas que têm sempre uma só e simples leitura.

in Miguel Torga, Diário.

sexta-feira, novembro 02, 2012

S/ Título

"Coimbra, 16 de Março de 1962 - Ponho-me a pensar, com exemplos cimeiros, nesta ânsia realizadora incurável, que faz de cada artista um monstro de tenacidade e um símbolo de insatisfação.
Balzac a trabalhar dia e noite à custa de chavenas de café, Proust a deixar no papel o gráfico da sua agonia, Miguel Ângelo a aproveitar à luz de uma candeia, os últimos momentos de génio, o Aleijadinho a esculpir, com o escopro e o martelo amarrados aos cotos das mãos leprosas... E  dou comigo em plena heresia, a duvidar da sinceridade do autor do Génesis. Nenhum criador verdadeiro, mesmo que seja Deus, descansa no sétimo dia..."

in Diário IX, Miguel Torga, Coimbra
 

sábado, abril 24, 2010

Liberdade!

"Coimbra, 1 de Fevereiro de 1958 - Liberdade! Liberdade! Liberdade!

Parece infantil, mas é verdadeiro. Sem ela, é que nada feito.

Pode dar lugar a um certo desregramento, a uma certa anarquia. Mas o melhor do homem só nela se realiza. A chispa do seu génio criador, como um raio das trovoadas, necessita de amplidão para se mostrar. Já se sabe que a palavra foi degradada por Gregos e Troianos, e que um bom sofista é capaz de demonstrar que a água é doce. O pior é que quando a gente a bebe sabe-lhe mal. Pregam-nos a excelência da força e da opressão; confiamos e provamos; e sai-nos o estômago pela boca. A autoridade imposta, a ordem por canalização das vontades, são úteis na construção de pontes e na regularização do trânsito. Em matéria de floração humana, mirram e matam. Contra o definhamento do espírito só realmente a liberdade. (...) A razão esmagada, viu sempre que a única forma de corrosão da tirania, seria uma expressão sem peias. Sempre compreendeu que no dia em que a primeira voz açaimada se pudesse erguer a sério contra os muros das bastilhas, começaria a derrocada. A desgraça é que a tirania soube-o também. E nesse capítulo, nunca fez qualquer concessão. Cortou, como corta ainda, impiedosamente e cerce, a língua dos rebelados."

in Diário Vol VII e VIII, Miguel Torga

sábado, janeiro 30, 2010

Humanidade

Coimbra, 3 de Maio de 1956 - Tempo sem coração, este nosso! Dir-se-ia que quanto mais os sistemas agregam os homens no redil social, mais sozinhos e desamparados deixam cada indivíduo. Com todas as protecções do Estado, o pobre cidadão fica sem afecto e sem ninguém. Embora não usemos ainda uniforme, somos já todos órfãos asilados.

in Diário - Miguel Torga, Vols. VII e VIII

Se a constatação de Torga era válida em 1956, muito mais o é agora.

Protegidos pela desculpa dos mecanismos de protecção social, abandonamos cada vez mais o indivíduo, transformando-o em simples estatística. Podem até ter onde dormir e o que comer, mas falta-lhes o afecto e a dignidade.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Mudam-se os tempos...

Coimbra 8 de Junho de 1953 - Às vezes fico-me a pensar no grau de intolerância que é preciso para, num país como o nosso, existir uma incompreensão tão cega pelo drama de todos aqueles que vivem à margem da Igreja. Nados e criados num ambiente familiar católico, aplainados na doutrina, convivas mais tarde à mesa de uma literatura fradesca e devota, limitados às emoções de uma arte exclusivamente religiosa, rodeados de amigos praticantes, e a pegar e a despegar do trabalho ao som de sinos que tocam o Ave, só mesmo porque qualquer coisa de muito profundo, de muito rebelde, de muito invencível, se recusa dentro da natureza de tais anatematizados, explica que se arredem de um caminho onde tudo lhes seria fácil, e tomem por outro onde tudo lhes é difícil. …”

in Miguel Torga - Diário Vols VII e VIII

Passado mais de meio século, sou tentado a concluir que tudo se inverteu e são agora os crentes o objecto da incompreensão de que Torga nos falava em 1953.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Mudar de Sistema

"Coimbra, 27 de Maio de 1952 - Um Juiz meu cliente desanimado da vida. Quanto mais julga e condena, mais crimes lhe aparecem. E eu só lhe disse:

- Mudem de sistema! Em vez de construírem hospitais e tribunais, e ficarem à espera do homem quando ele ali chega tuberculoso ou criminoso, vão ao encontro dele no caminho da vida, e dêem-lhe o pão que lhe falta e a cultura que não tem..."

in Diário - Miguel Torga - Vol V/VI